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A História

“– O que foi que te inspirou a começar a voar?”
“– Primeira coisa que eu vi que voava foi aviãozinho de papel... que eu aprendi fazer com uns quatro anos de idade [...]”

Tudo começou na longínqua década de 1960, mais de cinquenta anos atrás. Para contar a história do Curiango com riqueza de detalhes precisamos voltar para aquele tempo e rever a trajetória do Mister Elvis. Há um versinho na internet que diz que toda vez que você pergunta a um aviador a sua história na aviação, é bom sentar e prestar atenção, pois ouvirá uma história de amor. Então aí vai:



A primeira coisa que ele viu voar foram os aviõezinhos de papel, que aprendeu a fazer na década de 1960, com uns quatro anos de idade. O vizinho Chico Brendler foi quem ensinou: “– Um dia ele apareceu fazendo aviãozinho de papel, aquilo foi uma farra!”
Numa época onde as coisas eram mais simples, a molecada saía de casa e andava por tudo, então, com uns quinze, dezesseis anos de idade, numa dessas aventuras, descobriu com alguns amigos o Aeroporto de Ijuí/RS. Depois disso começaram a passar os fins de semana lá, onde as águias se encontravam, “enchendo o saco” dos pilotos. Cada um que saía “enchia o avião de moleque” e levava junto voar.
Com dezessete anos de idade já trabalhava como desenhista em uma construtora, onde conheceu um arquiteto recém-chegado, estagiário da empresa, primo do Chico Brendler, com quem tinha perdido contato há uns anos. Depois de uma conversa, perguntou do antigo amigo dos aviõezinhos de papel, conseguiu o endereço dele e resolveu, no final do expediente, dar uma passada pela rua, de bicicleta. Deu a sorte de achar ele trabalhando na garagem de casa: se reencontraram.
O Chico já era mais velho, casado, trabalhava com eletrônica e em cima das mesas da garagem deixava alguns aeromodelos. “– Aí voltou a febre, de novo”.
Do reencontro saiu com um aeromodelinho meio quebrado que o Chico deu para ele, o qual arrumou para brincar de voar. “– Fomos fazer voar, quebramos tudo de novo!”
Depois desse reencontro e do presente, entrou no mundo dos aeromodelos. Como naquela época as coisas eram infinitamente mais simples do que hoje em dia, na era da tecnologia, para conseguir comprar um acessório ou peça para um aeromodelo, ele conta que precisava enviar uma carta para São Paulo e pedir para que a loja enviasse as coisinhas pelo correio. O pagamento era feito com Vale Postal, também pelo correio.
O contato com o amigo Chico Brendler continuou, e daí também o contato com os aeromodelos. Nessa época, final da década de 70, o Chico já começava a fazer aeromodelos rádio controlados. Em São Paulo se encontrava algumas coisas para comprar, mas com um emprego de salário baixo manter o hobby era inviável: tudo era muito caro. Em função disso, a maioria dos rádios que se usava era contrabandeada (mais tarde, o pessoal que trabalhava na Varig trazia os rádios nos aviões, na surdina), se acaso fossem pegos pela polícia com algum dentro do carro, era problema na certa.
Surgiu então a combinação de paixão e falta de dinheiro mais a habilidade de desenho, criatividade e habilidade manual, todas em abundância. A saída para o problema era desenhar e construir os próprios aeromodelos em casa. “– Como eu não tinha dinheiro pra comprar um aeromodelo, eu fazia, eu fabricava os meus desde o início, comprava as madeirinhas... Eu desenhava, os meus aviões sempre eram diferentes, eu desenhava um avião e fazia.”
Foi evoluindo fazendo perguntas e estudando o básico da aerodinâmica conforme podia, com o que tinha, que na época não era muito.
Naquele tempo já havia pessoas que construíam seus próprios aviões, com os recursos e materiais disponíveis, então a ideia de fazer o próprio avião já existia naquela época, mas era inviável por questões tanto financeiras quanto pessoais, além das leis e regras de construção amadora serem bastante dificultosas. Por essas razões, o mundo dos aeromodelos era o mais viável, apesar de ainda ser caro.
Nos anos 80 ainda fabricava aeromodelos de madeira, pois a fibra de vidro era um material nobre e caro, encontrado apenas em São Paulo.
Já há alguns anos no aeromodelismo foi convidado por um amigo a viajar para São Borja/RS, para ajudar a recuperar um avião quebrado. Na época desempregado, aceitou o convite e passou alguns dias ajudando na recuperação do avião. Depois recebeu o convite para trabalhar na aviação agrícola, pois já possuía conhecimentos de mecânica. Mesmo trabalhando com aeronaves agrícolas, continuou construindo aeromodelos, em Cruz Alta/RS, onde vivia no aeroclube, e participando de eventos junto ao amigo Chico Brendler.
Foi então que, em 1982, surgiu a ideia de fabricar um aeromodelo de asa baixa, para o qual já tinha um desenho e um nome: Curiango. O nome foi encontrado em uma enciclopédia de pássaros que havia pertencido ao pai, Conny Hein. Ele conta que escolheu esse nome porque achou a sonoridade bonita.

1982, Ijuí - Rio Grande do Sul
Na foto acima o primeiro aeromodelo Curiango, feito de madeira. De formato simples, cilíndrico, tinha apenas 1,40m de envergadura. Foi desenhado pela primeira vez no papel de um maço de cigarros: “– Eu fiz um desenho pequenininho num maço de cigarro, aquele papelzinho branco que tem dentro do cigarro, eu desenhei em cima dum papelzinho e ficou bonitinho, pequenininho assim... Fui na mesa de desenho (...) e desenhei ele na escala de aeromodelo e logo comecei a construir...”
Foi o único modelo de Curiango sem as bochechas, adicionadas nos próximos modelos porque ele gostava muito dos aviõezinhos de fórmula 1 americanos (tinham esse nome, mesmo), que eram pequenos e bochechudos.

Primeiro Curiango com as características bochechas. Ainda temos este aeromodelo! Cerca de 1993, Aeroclube de Santa Maria/RS.
Fez moldes de fibra de vidro e construiu alguns Curiangos para os amigos, apesar da dificuldade de se produzir essas coisas naquela época, pois custava caro e não eram lá muito valorizados.
A técnica de construção de aeromodelos foi sendo aperfeiçoada com o passar do tempo. Aprendeu algumas coisas com um amigo chamado Gustavo, que morava na região de Porto Alegre e construía aeromodelos muito bons. De vez em quando fazia visitas, quando tinha que ir à capital comprar materiais.
Passados muitos anos rolando pelo Brasil com aeromodelos debaixo dos braços e depois de diversos empregos diferentes, passou a trabalhar na OMAER, em São Sepé/RS, renomada oficina de aeronaves agrícolas. Nesta oficina ajudou a montar diversas aeronaves, inclusive um dos primeiros – se não o primeiro – Vans RV6 do Brasil. “– Aí eu já era um bom pintor, eu pintei o avião, que era o avião do patrão... Ficou lindo!”. O patrão era o grande aviador Ruy Textor. Mister Elvis conta que se lembra dos pequenos André e Tiago passeando pela oficina.
De São Sepé/RS se mudou para Santa Maria/RS, onde construía aeromodelos na garagem de casa, numa oficina própria, pequena, ainda tentando viver da paixão pelo voo. Naqueles tempos era muito difícil conseguir divulgar o trabalho e viver dele, já que a principal forma de divulgação era através de uma revistinha de São Paulo. Então, entre um emprego e outro, vendia um aeromodelo.

A oficina na garagem de casa.
 


Depois de mais algumas andanças pelo Rio Grande do Sul, em 2001 se mudou para Tupã/SP, onde passou a trabalhar na extinta Prince, fábrica de aeromodelos. Na Prince desenvolveu muitos aeromodelos e refez os já existentes com técnicas aprimoradas para torna-los mais leves e melhores. Eram exportados para oito países, incluindo EUA e Alemanha. Foi nesta fábrica que o Curiango aeromodelo passou a ser exportado para os EUA, com o nome Starship (os gringos tinham dificuldade em pronunciar o nome Curiango). Havia diversos projetos e promessas nessa época, mas que por razões diversas acabaram não dando certo. Um deles foi o projeto da aeronave STR100, em conjunto com Waldemar Storch, que por diversos motivos não obteve sucesso.

Starship
Ainda em Tupã um amigo, Osmar Leal, havia comprado um ultraleve experimental e se empolgado com a ideia de voar (Tupã já contava com uma pista homologada, mas de pouca atividade). Depois de algum tempo comprou a planta de um KR2: “– E nesse meio tempo o Osmar se empolgou e comprou uma planta do KR2, aí ele me chamou e falou ‘– se você me ajudar a fazer, eu faço um avião, senão não faço.’”
Osmar começou a construir o avião com algumas dicas e ajudas do Mister Elvis, foi nesse meio tempo, enquanto o KR era construído, que as plantas definitivas do Curiango em escala real foram desenhadas. A partir desse momento o projeto pareceu mais viável.
Apesar do fracasso do projeto do STR100 e da Prince, foi criado certo entrosamento com o pessoal da Aeroalcool, que contava com James Waterhouse como engenheiro. Então, num belo dia, desempregado e apenas com a planta e uma maquete do Curiango, foi até a Aeroalcool atrás do James em busca das “coordenadas” para começar a construção do avião. Passou o dia inteiro andando atrás do engenheiro, muito ocupado, com as plantas e a maquete debaixo do braço, esperando um momento para poder discutir a viabilidade do projeto. “– Passei o dia inteirinho andando atrás do James dentro do hangar, ele era muito ocupado na época, viajava muito... passei o dia inteirinho andando atrás dele, com a planta na mão e o aviãozinho embaixo do braço, querendo que ele olhasse a minha planta pra me dar um okay pra eu fazer o avião...”
Quando era quase noite, hora de ir embora, surgiu a oportunidade e o James resolveu dar uma olhada nos desenhos. Estendeu a planta sobre uma asa de avião no hangar. O engenheiro olhou, achou bonito, ouviu como o avião seria feito, as técnicas... Deu o aval da construção, mas antes avisou: “– Você vai morrer com esse avião, alemão, isso aqui é um caça!”
“– Não, mas eu vou fazer... Se você me ajudar eu vou fazer o avião, se você não me ajudar eu vou fazer o avião do mesmo jeito!”. Nesse momento o James olhou as plantas e deu as coordenadas de como fazer a laminação, além de, algum tempo depois, dar de presente os desenhos das nervuras e vistas do avião feitos em computador.

Curiosidade: quando começou a construir o Curiango, ainda não sabia voar. Foi no Aeroporto de Tupã que aprendeu, em um Orion de prefixo PU-OVO (o avião parecia um ovinho mesmo, todo branco).


Começou a construir o Curiango desempregado, nos fundos de casa, em uma área pequena que comportava uma bancada de ferramentas e outra montada para comportar o charuto do avião. Os amigos e conhecidos cochichavam pelos cantos que aquilo era coisa de louco, um cara desempregado construindo um avião nos fundos de casa. No fundo ninguém acreditava que o projeto sairia da bancada.

Veja as fotos de todo o processo de construção do Curiango aqui: Construção

Certo dia foi convidado a ir a uma festa em Ituverava com alguns amigos, levando algumas peças feitas em fibra para mostrar no evento. Mesmo contrariado e sem dinheiro, resolveu ir. Foi nessa festa que conheceu Roberto Brito, o Beto.
O Beto mencionou que estava construindo um avião em Atibaia/SP e precisava de algumas peças em fibra, perguntou se seria possível faze-las e trocaram contatos. Nesse meio de tempo o Mister Elvis montou uma pequena fábrica de aeromodelos em Tupã, onde também construía algumas peças de fibra para aeronaves de pequeno porte. De vez em quando pegava o carro e ia sozinho a eventos de ultraleves e mostrava o trabalho, além de fazer amizade com pessoas do meio. Aos poucos se tornava cada vez mais conhecido por fazer um trabalho bonito e de qualidade.

A foto mais icônica da construção do passarinho. Ao fundo a fábrica de aeromodelos em Tupã/SP.
Meses depois recebeu um telefonema do Beto, que propôs uma visita a Atibaia para fabricar uma peça para o Zenith Zodiac CH601. Combinaram valores e alguns meses depois foi à cidade, onde o Beto já tinha ideias de montar uma fábrica de aeronaves.
Antes de retornar a Tupã, recebeu a proposta de trabalhar nessa fábrica. Depois de algumas conversas a mudança para Atibaia aconteceu, passando então a fabricar as aeronaves Zenith CH 601, CH 701, CH750, CH801 na AirFox Ultraleves. Ali os negócios foram muito bons, trabalhava-se muito e ganhava-se bem. Em razão do trabalho corrido e constante, o Curiango acabou ficando um tempo parado, em um cantinho do hangar no Aeroporto de Atibaia. Foi neste período que desenvolveu melhor as habilidades de voo, voando muitas horas no KitFox Águia II PU-GJA e no Zodiac PU-ZOD, tendo aulas com Lucio Vidal.
Após as coisas se estabilizarem e se tornarem mais fluidas na fábrica, retomou a construção do Curiango, passando madrugadas a dentro mexendo no passarinho.
Em função de ter apresentado os engenheiros da Aeroalcool, incluindo o James Waterhouse, à AirFox, recebia visitas regulares deles, que acabaram se tornando os engenheiros dos aviões construídos na fábrica. Então entre uma visita e outra, mostrava o Curiango ao James, que fiscalizava o trabalho e dava dicas.
Com o passar do tempo o projeto foi tomando cada vez mais forma, ficando pronto no fim do ano de 2009. Eis que na manhã de 13 de janeiro de 2010 o passarinho alça o primeiro voo:


Quando perguntado se se surpreendeu com o Curiango, o Mister Elvis diz que não: “— Ele não me surpreendeu, eu sabia que ele ia ser assim. Eu tinha essa certeza, ele foi projetado pra ser assim e ele deu na mosca, em cima do projeto, ele deu certinho.”

Então, resumidamente falando, o Curiango partiu de um projeto de aeromodelo de 1982, que, depois de muitos anos de luta e perseverança, ganhou os ares e encanta por onde passa.




Possui motor Volkswagem 2300cc 100HP, injetado a álcool. Consome 19 litros por hora, num regime de 3000/3200 RPM, voando a uma velocidade de cruzeiro de 155KT IAS. Estola a velocidade de 45KT IAS. Os tanques comportam 40 litros de combustível cada, o que dá à aeronave uma autonomia de mais de 4 horas em velocidade de cruzeiro. Pesa 280kg vazio e carrega até 450kg (10kg de bagagem). A envergadura é de 7 metros, e comprimento de 4.7 metros, área alar de 5 metros quadrados. Hélice de madeira, de 52 x 69 polegadas. A estrutura aguenta 6G positivos e 4G negativos.


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       Por que monoplace? “– Eu fiz ele monoplace porque eu queria um avião menor possível. Eu sempre achei muito bonitos os aviões que tinha na América e eu falei ‘eu quero fazer um avião bem pequenininho’, chamar atenção por ser pequeno. Então eu sentei no chão... simulei a cadeira dele, com o ângulo já que o James tinha me falado, tem um ângulo ideal pra coluna, pra em caso de acidente não machucar a coluna... Eu simulei o banco e desenhei o avião em torno de mim, pro meu tamanho.”



Porque não desmontável? “– Pra ficar mais seguro, mais resistente... Porque ele é muito rápido, então eu decidi fazer as asas coladas porque a casca dele é estrutural”


Debaixo da asa de um Cessna 188. Em sua parte mais alta, o Curiango mede 1.45m!

Após passar por algumas modificações, em 2017 sua pintura foi refeita, com alguns detalhes diferentes.


Então, essa é a história do Curiango. De aeromodelo a avião. Foram mais de 30 anos de sonho e andanças pelo país afora, mas no fim das contas tudo valeu a pena e deu certo. Perseverança, muita garra e força de vontade levam a gente longe! Por isso, realmente: nunca desista dos seus sonhos!
Um grande abraço!

História transcrita por Aline Hein, irmã do Curiango e administradora das redes sociais do passarinho!